
“A força mais poderosa do mundo é uma mulher na menopausa com tempero” Margaret Mead (1950)
Essa foi a citação que abriu a discussão do módulo sobre menopausa no mestrado sobre Estudos Menstruais Contemporâneos que estou cursando com Lara Owen.
As autoras do artigo que traz este trecho propõem uma interpretação social da menopausa que desafia a narrativa médica do declínio a partir de contribuições das feministas Virginia Woolf, Margaret Mead e Julia Kristeva.
A socióloga Cécile Charlap (2015 citado por Quental, Gaviria e del Bucchia, 2023) argumenta que a menopausa não é uma experiência universal, mas sim uma construção social. O que um dia foi considerado um processo natural de desenvolvimento e transição para a meia-idade, de algumas décadas para cá, vem sendo mais e mais caracterizado como um déficit e declínio biológico indesejado. Sendo um problema, legitima-se a ideia de que necessita de conserto. (Você já se perguntou quem se beneficia dessa narrativa?)
A partir de uma perspectiva de menopausa como liberação, as autoras propõem que as mulheres, nesta fase, têm a oportunidade de “matar o anjo do lar”, figura criada por Virginia Woolf que simboliza a docilidade feminina, associada à maternidade, cuidado e beleza. Ao fazer isso, as mulheres têm a chance de “redescobrir” novos aspectos ou “temperos” de si mesmas.
Não é um trabalho fácil, considerando que forças culturais equiparam regularmente menopausa com falência ovariana e fim da feminilidade. Mas e se vivêssemos em um contexto em que essa transição fosse interpretada sob um olhar mais positivo?
Jeanne Shea realizou uma pesquisa etnográfica sobre menopausa na China e conclui que lá, assim como no Japão, o fim das menstruações é bem visto e bem recebido pelas mulheres. Outro achado interessante é que que os calorões – um dos mais emblemáticos sintomas da perimenopausa ou transição para a menopausa – não são cercados de vergonha como no Ocidente. Já imaginou poder ruborizar e suar em paz sem ninguém olhar torto, com pena ou julgamento? Deve ser mesmo muito libertador.
Em suma, a forma como conceptualizamos um processo fisiológico natural pelo qual 51% da população mundial vai passar se viver o suficiente impacta não só como ele é percebido, mas também como é vivenciado por mulheres ao redor do mundo.
As reflexões do módulo sobre menopausa me fizeram concluir o seguinte:
- As experiências de menopausa não podem ser universalizadas; são situadas social e culturalmente.
- Ocidente e Oriente possuem visões bem distintas sobre essa fase da vida das mulheres.
- Agendas educacionais dentro e fora do ambiente de trabalho precisam incluir aspectos positivos e benéficos da menopausa
- É preciso ampliar o imaginário social para ver a menopausa além dos seus aspectos incapacitantes para acessar seu potencial transformador e criativo.
- Será que o mundo está pronto para acessar sem medo o poder das mulheres na menopausa?
Espero que você embarque comigo nessa jornada de transformação social!
Referências
Quental, Camilla, Pilar Rojas Gaviria, and Céline del Bucchia. (2023). “The Dialectic of (Menopause) Zest: Breaking the Mold of Organizational Irrelevance.” Gender, Work & Organization 1–23. https://doi.org/10.1111/gwao.13017.
Shea, Jeanne L. (2020). “Menopause and Midlife Aging in Cross-Cultural Perspective: Findings from Ethnographic Research in China”. Journal of Cross-Cultural Gerontology (2020) 35:367–388. https://doi.org/10.1007/s10823-020-09408-6

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